por Rebecca Mistura
O ar escasso, em guerra com os pulmões, estes tão contraídos quanto seus músculos, travavam um embate cansado pelo equilíbrio. Gabrielle, nome de origem hebraica, carrega o significado “Deus é minha força”. Mas a luta de uma mulher só poderia, facilmente, fazer aquele povo antigo repensar a etimologia.
Era 1984, e tal como descreveu Orwell, todos estavam assistindo. Era impossível tirar os olhos da tela. “Tu se lembra disso?”, perguntei à minha mãe. “Não dá pra esquecer”, disse. Foi há quase quarenta anos e o tempo dissolveu os ouros e pratas como se fosse um ourives. Ficou Gabrielle Andersen.
37ª colocada em um árduo percurso de 42 km, ela cruzou a linha de chegada após 2 horas e 40 minutos de prova. Vencida pelos números, que de nada valem. Passam tão despercebidos quanto os médicos, que invadem a pista como os olhos das multidões invadiam a atleta: impotentes e incapazes de compreender a rebeldia da força.
Gabrielle cruzou a linha de chegada. O estádio irrompe em cacofonia, mas ela, nada ouve. O branco da linha toma conta da visão, dos pulmões, dos músculos. A força irredutível, tecnicamente, vencida. Mas vencedora, a história declara: “Gabrielle é a força”.
